A celebração do dia de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro, abre espaço para uma análise sobre a pluralidade religiosa brasileira e as fronteiras entre fé e política. Em artigo de reflexão, o pesquisador e doutor em Semiótica pela USP, Bàbá Sidnei Nogueira, discute a convivência de crenças no país e os riscos de projetos que visam impor uma única identidade religiosa ao Estado.
O autor pontua que a figura de Maria transita entre o catolicismo e as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, integrando vivências históricas que superam rotulações simplistas.
O texto aborda ainda as controvérsias do cenário político nacional. Embora checagens do Coletivo Bereia apontem não haver provas de que o candidato Flávio Bolsonaro tenha proposto retirar o título de Padroeira da santa — desmentindo boatos sobre um projeto arquivado em 2008 —, o pesquisador alerta para o discurso do candidato ao prometer “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Para Sidnei Nogueira, a utilização de linguagens de domínio religioso na esfera pública converte a fé individual em promessa de controle estatal, empurrando para a margem a diversidade de cidadãos que crêem em outras tradições ou que não possuem religião.
Pluralismo e democracia
O artigo conclui que a verdadeira democracia não exige a ocultação da fé, mas garante que nenhuma expressão do sagrado seja usada pelo Estado para definir quem pertence ou não plenamente à nação.
Sobre Bàbá Sidnei
Bàbálórìṣà Sidnei Nogueira é escritor e pesquisador, cuja trajetória se constrói a partir do terreiro como lugar de produção de conhecimento, ética e ação política. Filho da Ìyálórìṣà Joesia Teles de Oyá e do Ọ̀gá Plácido de Ògún, é iniciado há 40 anos para o Òrìṣà Ṣàngó, referência que atravessa sua leitura de mundo e sua atuação pública.
Doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo, Bàbá Sidnei de Ṣàngó articula pensamento acadêmico e saberes ancestrais para refletir criticamente sobre as relações étnico-raciais, o racismo religioso e as formas de violência que atingem as religiosidades afro-brasileiras. É também membro consultivo da UNESCO – SOST. Sua escrita e sua fala partem da experiência negra para tensionar estruturas de poder, disputar narrativas e afirmar outras epistemologias possíveis.
Autor de diversos livros, entre eles Intolerância Religiosa, finalista do Prêmio Jabuti 2021, tornou-se referência nacional no debate sobre racismo religioso, colonialidade e liberdade de crença no Brasil. Em 2026, lança a edição revisada e ampliada da obra, reafirmando a atualidade de uma reflexão que permanece fundamental para compreender as relações entre religião, racismo e violência no Brasil contemporâneo.
Sua atuação pública reafirma o terreiro como espaço de produção de conhecimento, pertencimento e resistência, aproximando ancestralidade, pensamento crítico e transformação social.
Liberdade Religiosa e Democracia
O que diz a Constituição sobre a religião do Estado brasileiro?
A Constituição de 1988 estabelece que o Brasil é um Estado laico, garantindo a liberdade de crença e a proteção aos locais de culto e suas liturgias.
Quem assina o artigo de opinião publicado?
O artigo é assinado por Bàbá Sidnei Nogueira, escritor, doutor em Semiótica pela USP e liderança das religiões de matriz africana.
Onde consultar checagens de fatos sobre religião e política?
Informações e checagens sobre temas religiosos na política podem ser consultadas no portal do Coletivo Bereia.
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